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sábado, 14 de abril de 2012

Reflexões sobre o estatuto da História




Marcada por um longo e, às vezes, conturbado processo de elaboração, o discurso historiográfico é essencial para que tomemos consciência do papel da nossa disciplina no mundo contemporâneo. Usurpada por uns, manietada por outros ou ainda servindo de instrumento de glorificação, a história é um estudo importante na formação do Homem e na sua inserção social.

Mas a História é realmente uma ciência ou um discurso sobre ela?

A história, que significa "pesquisa", "conhecimento advindo da investigação" é a ciência que estuda o Homem e a sua ação no tempo e no espaço, concomitante à análise de processos e eventos ocorridos no passado.
A História é uma ciência com um objeto – o Homem no tempo e como tal tem de se submeter, ao método científico. O método científico é um conjunto de regras básicas, de como se deve proceder a fim de se produzir conhecimento científico, quer seja este, um novo conhecimento quer seja este, fruto de uma integração, correção (evolução) ou uma expansão da área de abrangência de conhecimentos pré-existentes.
O método histórico é o método crítico ou crítica histórica, compreende duas operações a: análise e síntese .



A Análise compreende, por sua vez, quatro operações: a heurística, as críticas interna e externa, e a hermenêutica.


1. Heurística, é a operação pela qual se procede a recolha das fontes de informação necessárias à análise histórica.


2. Crítica, onde se avalia a validade ou não das versões contraditórias. É o mais complexo.


3. Hermenêutica, é a operação pela qual se procede a interpretação dos documentos em termos de se saber em que medida as informações fornecidas por estes responde a questões inicialmente levantadas.


A História é construída pelo historiador a partir da análise de textos historiográficos. O historiador tem o papel fundamental na formação da história enquanto ciência; porque é ele que busca a "realidade ou a verdade histórica"; porém o fato histórico, não se destaca por si próprio, depende da ação do historiador para o valorizar e organizar.
O historiador é uma peça fundamental no motor da história; ele tem o poder de selecionar, classificar, criticar e por fim extrair uma conclusão do facto, portanto a História apesar de ser uma ciência, o facto histórico ou a realidade histórica só é tomado com rigor ciêntifico após uma rflexão do historiador, que o constroi.


A História é um estudo problematizante e "questionador" ou uma descrição, mais ou menos elaborada?

Ao longo do tempo o conceito de História evoluiu segundo Maria Cândida Proença (1989) “Longe vai o tempo do absoluto domínio da História positivista e factual, descritiva, neutra, objetiva, aceitável por todos. Hoje, encontramo-nos muito mais próximos da posição de que a História só pode ser problemática, interpretativa, sociológica, filosófica, inaceitável para alguns” p.91.
A História é um estudo problematizante e questionador mas foi um conceito que foi evoluindo.
Para os gregos, a história não se referia necessariamente ao passado, era antes uma lista ou descrição sistemática de factos. Para Aristóteles, a história era o estudo de fenómenos particulares. A Grécia Clássica acentuou a formação do espirito do historiador e a construção do seu pensamento racional. Na Grécia Clássica, Heródoto e Tucídes são considerados como os fundadores da História. Durante a Idade Média, a história permaneceu ligada às crónicas e a uma conceção teológica muitas vezes deformada nos relatos pela distorção e pela lenda. O conceito científico começou a avançar durante o Renascimento, quando os humanistas adotaram uma visão mais ampla e desvinculada da teologia ao interpretar os textos clássicos. No século XVII empregaram-se algumas ciências auxiliares que possibilitaram os primeiros esboços de uma "ciência" histórica em sentido moderno.
Alguns pensadores desse século, no entanto, não consideravam a História uma ciência. Essa era a opinião de Francis Bacon e René Descartes, embora em tenham dado uma excelente contribuição, pois assentaram as bases filosóficas da ideia do progresso contínuo da humanidade, que teve muita influência no pensamento do século XIX. Bacon dava pouca importância à precisão histórica, mas realizou uma divisão útil da história civil e natural, e relacionou-a com a memória. Descartes chegou a duvidar de que a história fosse um ramo do conhecimento.
Até o século XVIII não se pode falar de uma conceção científica da história. A partir de desta altura há uma preocupação com a verdade, com o método, com a análise crítica de causas e consequências, tempo e espaço. Esta conceção define-se a partir da mentalidade oriunda das ideias filosóficas que nortearam a Revolução Francesa de 1789. Toma corpo com a discussão dialética (de Hegel e Karl Marx) do século XIX e consolida-se com as teses de Leopold Von Ranke, criador do Rankeanismo, o qual contesta o chamado "Positivismo Histórico" (que não é relacionado ao positivismo político de Augusto Comte) e posteriormente com o surgimento da Escola dos Annales, no começo do século XX.
Jean Le Rond d'Alembert adotou na Encyclopédie a classificação de Bacon, que relacionou os conhecimentos humanos com as faculdades da memória (história), da razão (filosofia) e da imaginação (poesia), e dividiu a história em sagrada, civil e natural.
No século XVIII a História desenvolveu-se a vários níveis, o seu conteúdo deixou de se limitar às narrações de guerras ou das vidas dos monarcas. O campo de investigação é alargado. Tratou-se de mudar a matéria habitual e a problemática da história.Com o advento da revolução a História adquire uma função política.
No século XIX e a especialização da História, neste século a história distancia-se da filosofia e cria-se a História Cientifica “…de carácter erudito e técnico que liberta-a dos vínculos que a aligavam à filosofia. Ao mesmo tempo desenvolveram-se diversas disciplinas especializadas: história económica, história política etc.” (Proença, 1989:29).
No século XX com a revista dos Annales fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucian Febvre, foi empreendida uma forte renovação no conhecimento histórico. Suas abordagens revolucionaram o estudo da História. Uma delas foi a nova maneira de encarar a relação do historiador com o seu objeto, acompanhada pela tentativa de construção de uma história total, através da utilização de abordagens e metodologias vindas de outras ciências sociais, daí sua preocupação com a interdisciplinaridade.

Pode-se dizer que as principais contribuições da Primeira Geração dos Annales foram: ampliação da ideia de documento (ao considerar que o historiador podia utilizar outras fontes), aproximação com outras ciências humanas, em uma clara resposta aos questionamentos e vazios deixados pela historiografia do século XIX, que defendia a primazia dos factos, depositados nos documentos oficiais, cabendo ao historiador, “extrair” a verdade sobre o passado, produzindo grandes narrativas, como as histórias políticas e nacionais.
A Escola dos Annales “…põe em causa toda a historiografia tradicional, surgindo como reação às escolas metódica e positivista. Visava, sobretudo, substituir uma visão demasiadamente política e institucional da História, que caracterizava as correntes anteriores, por uma História mais vasta, que incluísse todas as atividades humanas; uma perspetiva da História menos ligada à narrativa dos acontecimentos e mais ligada à análise das estruturas” (http://www.infopedia.pt/$escola-dos-annales, visualizado dia 13.04.2012) . Esta escola preconizava a História total, substituição da história narrativa pela história – problemas, alargamento do campo do documento e privilegiava as relações de interdisciplinariedade. A história é viva e está em constante mutação, nada é estanque, evolui.


A História está ao serviço do Homem e permite compreender melhor o futuro deste? Ou é o estudo do passado?


É o estudo do passado para entender o presente, mas de um passado vivo, que está presente em nós.
Segundo José Mattoso (2002:96), é o conhecimento do passado humano “…que permite ao individuo adquirir uma noção global de sociedade, em que está inserido, por intermédio do conhecimento que a história fornece acerca dos diversos fatores que interferem na constituição dessa mesma sociedade” .

Marc Bloch no seu livro Apologia da História ou o Ofício do Historiador (1941-1942) define História como a ciência que estuda o Homem no Tempo. Com esta definição, a historiografia do século XX começa a se apresentar uma proposta mais sofisticada, ao invés de se limitar apenas ao estudo do passado, o próprio tempo presente podia agora ser apresentado como um dos campos de interesse dos historiadores.
Com Heródoto, a História tinha já como seu ‘centro de interesses’ o “homem”. A História, então, remetia etimologicamente à “investigação”, mas não ainda explicitamente ao estudo do homem “no tempo”. Mas com os Annales e outros movimentos do século XX, ou mesmo com os fundamentos do Materialismo Histórico em meados do século XIX, ficará claro que a delimitação da História foi se afinando e se enriquecendo na direção de considerar que o seu ‘campo de interesses’ se refere aos objetos que remetem ao “homem envolvido pela temporalidade”. De resto, vale lembrar também que outra ‘singularidade’ importante da História enquanto campo de conhecimento refere-se ao seu necessário apoio em fontes (documentos, textos, imagens, objetos, e outros indícios que nos chegam das sociedades passadas).
Segundo, Maria Cândida Proença (1989) a realidade histórica, objeto da história, “…é humana, particular e passada. Pelo facto de ser passada só a podemos conhecer através de testemunhos (…). Daí a importância fundamental das fontes no ensino da história. Mas em história, os factos são particulares. As situações históricas ocorreram num tempo e espaços próprios e tiveram intervenientes específicos pelo que não se repetem” p.96.
É inquestionável que a História é o estudo do passado humano, mas será que este passado permite compreender melhor o futuro?
Eu penso que permite compreender melhor o presente e também o futuro. A aprendizagem da história permite aos alunos adquirirem métodos de análise de situações sociais, o desenvolvimento do rigor de pensamento e do sentido crítico. Para Maria Cândida Proença (1989:92) “O confronto de diferentes civilizações, culturas e mentalidades permite desenvolver nos alunos perspectivas relativizantes e abrir caminhos a atitudes de tolerância face a formas de pensar e de agir diferentes da sua, isto é, a aprendizagem da história pode ajudá-lo a compreender melhor a sua época, a si próprio e aos outros”.
Marc Bloch afirmava que "A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja mais útil esforçarmo-nos por compreender o passado se nada soubermos do presente".

O ensino da história deve visar o crescimento pessoal do aluno o desenvolvimento das capacidades e abandonar os métodos tradicionais, ou seja a aquisição do saber fechado, e apoiar-se numa metodologia que apela ao desenvolvimento da autonomia, criatividade e sentido de cooperação. Maria Cândido Proença (1989:93) afirma mesmo que “Importa abandonar o ponto de vista da transmissão de um saber enciclopédico, para realçar a relação da História com a própria vida. A História é vida”.


Por fim, a História resultado de uma ação humana ou a contemplação do Homem?


O Historiador é uma peça fundamental em todo o tipo de cultura. Ele retira e preserva os tesouros do passado, interpreta a História, aprofunda o conhecimento do presente. Um povo sem História, e sem o Historiador, é um povo sem memória” (http://saibahistoria.blogspot.pt/2006/06/importncia-da-histria-e-o-trabalho-do.html ).
O historiador tenta compreender e não julgar os factos. Cabe-nos então tentar relacionar os objetos de uma forma dialética considerando a totalidade e tendo em conta que também somos objeto nesse processo. Há também necessidade do historiador em usar a escrita e documentos, como vestígios, para facilitar o seu trabalho. É de extrema importância entender que a analise crítica é feita através de questionamentos onde as novas questões produz conhecimento histórico. O homem é um ser em movimento, monta e desmonta, constrói e desconstrói, logo não há uma história fixa.
Segundo Edward Hallet Carr (1982:47), "...os factos não falam por si só: apenas quando o historiador os interroga é que eles ganham legitimidade diante da História. É historiador quem seleciona os factos, os factos que realmente devem ser dignos de análises e compreendidos num contexto mais amplo – o da “macro-história”".
Hallet Carr ressalta, ainda que os factos históricos e os documentos são elementos fundamentais para o historiador. Mas só por si não constituem a História: é necessário que o historiador atue sobre seu objeto, elabore questões sobre ele, interprete-o, desenvolva pesquisas a partir das ciências auxiliares e, acima de tudo, “mergulhe” no seu tema e esteja cada vez mais próximo de sua pesquisa. “A função do historiador não é amar o passado ou emancipar-se do passado, mas dominá-lo e entendê-lo como a chave para a compreensão do presente.” (p. 61).



Entendo que o historiador deve estar aberto a novas perspectivas, a novas maneiras de se pensar. Contudo, é fundamental que continue o seu caminho a partir da crítica das fontes utilizadas. Dessa forma, o conhecimento, do historiador, é fundamental porque lhe permita utilizar diferentes recursos, sabendo discernir o que é válido do que não é.
Com as reflexões que exponho neste trabalho concluo que o historiador tem hoje um papel fundamental no motor da história; ele tem o poder de selecionar, classificar, criticar e por fim extrair uma conclusão do facto, portanto a História apesar de ser uma ciência, o facto histórico ou a realidade histórica só é tomado com rigor ciêntifico após uma reflexão do historiador, que o constroi.


Anabela Reis da Costa nº 1005141


Referências Bibliográficas


CARR, Edward Hallet (1982). O Historiador e seus fatos, in Que é História? . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 3.ed.

Mattoso José (2002). A Escrita da História in Obras Completas (vol. 10). lisboa: Circulo Leitores.
Proença, Maria Cândida (1989). Didática da História. Lisboa, Universidade Aberta.

Le Goff, Jacques (1997). Memória – História in Einaudi (vol I). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Webgrafia
http://www.infopedia.pt/$escola-dos-annales, visualizado dia 13.04.2012.
http://diegoricoy.blogspot.pt/2010/03/funcao-do-historiador-papel-do.html, visualizado dia 13.04.2012
http://pt.wikipedia.org/wiki